A responsabilidade na preparação de um sermão começa muito antes de o pregador subir os degraus do púlpito. Adam Clarke, o pastor metodista e estudioso bíblico irlandês que viveu entre os séculos XVIII e XIX, entendia esse peso como poucos. Em sua famosa Carta a um Pregador, Clarke descreve uma cena que infelizmente não é incomum: a igreja inteira cantando os louvores enquanto o pregador, no altar, folheia a Bíblia de "última hora" tentando encontrar um texto para usar na mensagem.

Infelizmente, essa cena não ficou presa ao passado. Já presenciei algo idêntico. Lembro-me certa ocasião, de um retiro em que a igreja estava reunida e o preletor subiu ao púlpito sem a menor ideia do que iria falar. Para minha tristeza, depois de folhear a Bíblia sem rumo, ele a fechou e disse que o Espírito Santo falaria diretamente ao coração do povo, dispensando a exposição do texto.

O meu incômodo não foi com a expectativa da ação do Espírito, afinal, eu também dependo e espero totalmente dEle. O problema foi transformar a negligência no preparo em uma suposta revelação espiritual, como se ouvir o Espírito e debruçar-se com zelo sobre as Escrituras fossem caminhos opostos.

Para Clarke, esse improviso de última hora nunca foi sinal de "espontaneidade espiritual", mas de falta de cuidado. Ele recomendava o preparo antecedente inclusive para que o próprio pregador pudesse cultuar a Deus com paz, em vez de se corroer em ansiedade no altar. Estudar e meditar nas Escrituras (para um pregador da Palavra) é algo sério, e além disso, um ato de temor a Deus e respeito com as pessoas que se reúnem para ouvir a Palavra.

Esse zelo com a entrega da mensagem é a própria essência do conselho de Paulo a Timóteo:

"Até a minha chegada, dedique‑se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino. Não negligencie o dom que foi dado a você por mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros. Seja diligentemente nessas coisas; dedique‑se inteiramente a elas, para que todos vejam o seu progresso. Atente bem para a sua própria vida e para o ensino. Persevere neles, pois, agindo assim, você salvará tanto a você mesmo quanto aos que o ouvem." (1 Timóteo 4:13–16, NVI)

A instrução de Paulo une dois caminhos inseparáveis: o cuidado com a própria vida e o zelo com a doutrina. Não basta ter uma oratória envolvente se a vida pessoal está deformada. A Bíblia nos cobra maturidade nos dois lados.

Repare que Paulo espera que o progresso de Timóteo seja visível a todos. Um chamado autêntico não paralisa o indivíduo; ele o empurra para o crescimento continuado. Na igreja que pastoreio, não por acaso, chamamos a Escola Dominical de Escola de Crescimento. Todo domingo esse nome nos lembra de que não nos reunimos para acumular teorias, mas para amadurecer na compreensão e na vivência da Palavra. A dependência do Espírito Santo e a dedicação aos estudos não são adversárias.

É sob essa mesma lente que lemos o texto clássico de 2 Timóteo 2:15, sem transformá-lo num troféu de exibicionismo acadêmico:

"Procure apresentar‑se a Deus aprovado, como trabalhador que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade." (2 Timóteo 2:15, NVI)

O contexto dessa orientação mostra Paulo alertando contra discussões tolas e falas que apenas distraem:

"Continue a lembrá‑los dessas coisas, advertindo‑os solenemente diante de Deus, para que não se envolvam em discussões acerca de palavras; isso não traz proveito e serve apenas para desvirtuar os ouvintes." (2 Timóteo 2:14, NVI)

"Evite as conversas inúteis e profanas, pois os que se dão a isso prosseguem cada vez mais para a impiedade. O ensino deles alastra‑se como gangrena. Himeneu e Fileto estão entre eles. Estes se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já aconteceu, e, assim, desvirtuam a fé de alguns." (2 Timóteo 2:16–18, NVI)

O objetivo do preparo nunca foi vencer debates ou se orgulhar do conhecimento acumulado. Mas de servir à verdade com temor e proteger a noiva de Cristo do engano. Usar o saber bíblico para humilhar os outros, ou julgar que já se sabe o suficiente a ponto de dispensar o ensino na Bíblico da igreja deturpa o próprio testemunho cristão. Por outro lado, mascarar a irresponsabilidade e a falta de zelo sob o pretexto de uma "revelação espiritual especial" é engano e falta de cuidado com o rebanho do supremo Pastor.

Sabe, irmãos, não precisamos de diplomas ou de uma vasta biblioteca para ministrar com fidelidade. Às vezes, o maior salto de amadurecimento na vida de um pregador é ter a honestidade de não usar a Bíblia como mero pretexto para falar o que bem entende.

Para quem prepara uma mensagem, vale a pena fazer três perguntas simples:

  1. Eu consigo explicar o argumento central do texto?
  2. Eu sei diferenciar claramente o que a passagem afirma daquilo que é apenas "o que eu acho"?
  3. E, principalmente: eu me deixei confrontar por essa mensagem antes de levá-la à igreja?

Essas perguntas não são para gerar medo, mas para impedir que a nossa segurança ou hábito com o microfone cresça mais rápido do que a nossa humildade em ouvir a Escritura. Esse conselho antigo de Adam Clarke vai muito além do púlpito. Vale para quem ensina as crianças na Escola Dominical, quem lidera um pequeno grupo ou lidera uma célula.

Antes de falar é preciso escutar o Logos!

Permaneça na Palavra e faça discípulos.

Fontes e referências