A sabedoria que vem de Deus é reconhecida pelos frutos
Uma pessoa pode ter um vasto vocaborário religioso e uma enorme capacidade de persuasão, mas isso não garante que ela seja sábia. A verdadeira diferença só aparece quando olhamos para os resultados: verdades que constroem ou confusão? Discipulado ou disputa velada? Disposição para aprender ou uma necessidade doentia de ter sempre razão?
Na carta de Tiago, cap. 3, dos versos 3 a 18, a resposta para "quem é sábio" passa longe de títulos, cargos ou discursos bonitos. O convite é para olhar diretamente para a conduta. A sabedoria que vem de Deus não precisa ficar provando a si mesma o tempo todo com afirmações soberbas; ela se revela no dia a dia, na forma de viver, e é reconhecida pelos seus frutos.
Quando lemos Tiago 3, a partir do versículo 13, é importante notar onde esse trecho está inserido: logo depois de um alerta duro sobre o poder destrutivo da língua. Essa ordem faz toda a diferença. Tiago não está teorizando sobre inteligência de maneira abstrata. Ele está confrontando uma comunidade onde discursos piedosos, ambições pessoais e brigas estavam atropelando a fé declarada. Afinal, a mesma boca que bendiz a Deus não pode ser a que fere pessoas criadas à Sua imagem. Ter sabedoria vai muito além de saber o que dizer: envolve o que governa a nossa vontade de falar e como usamos a influência que recebemos.
"Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam inveja amarga e ambição egoísta no coração, não se gloriem disso nem neguem a verdade. Esse tipo de sabedoria não vem dos céus, mas é terrena, não espiritual e demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. A sabedoria, porém, que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores." — Tiago 3:13–18 (NVI)
Ao comentar esse trecho, John Wesley destacava que a sabedoria precisa se traduzir em atos praticados, e não em mero discurso. O que chamamos de "convicção", nada mais é do que orgulho e recusa de examinar argumentos.
Tiago aponta a inveja e a ambição egoísta como venenos incompatíveis com a sabedoria de Deus. E esses sentimentos costumam agir nas sombras antes de se tornarem públicos. Alguém pode sentar em uma reunião, uma célula, um grupo pequeno, utilizando-se de voz serena enquanto desmerece um irmão. A Bíblia nos impede de avaliar a vida espiritual apenas pela vitrine. O coração precisa ser passado a limpo, porque motivações malignas adoram se vestir de zelo religioso para justificar a própria agressividade.
Em contrapartida, a sabedoria do alto se manifesta em pureza, paz, amabilidade e transparência. Isso não significa fugir de conflitos ou ser "isentão", como dizem os politizados de nossa era. A pureza impede que a paz seja um mero acordo para "varrer a sujeira para debaixo do tapete", e a misericórdia impede que a verdade vire uma arma para condenar os outros. As duas precisam andar juntas. Quando alguém aponta uma injustiça, a igreja não pode rotular essa pessoa como "causadora" só porque o silêncio anterior era mais confortável. Buscar e manifestar a verdadeira paz exige encarar o que estava escondido, com responsabilidade e compromisso com a verdade.
A sabedoria que vem de Deus é reconhecida pelos frutos. Quando falamos de frutos, lembramos que frutos exigem tempo. A cultura de uma igreja é moldada por hábitos diários: a forma como reagimos a críticas, como acolhemos, quem tem espaço para falar, como corrigimos falhas e o que fazemos diante da vulnerabilidade alheia. Se semeamos medo e favoritismo por anos, não adianta anunciar uma "nova fase" e esperar que confiem. É preciso agir diferente, de forma consistente. Repito: consistente.
Assim, vale a pena olhar para uma conversa difícil recente em vez de tentar avaliar a vida inteira de uma vez. Consegui separar a pessoa da ideia que ela defendia? Estive disposto a admitir que estava errado em uma ideia? Considero também, uma boa prática pedir a alguém de confiança um retorno sincero sobre como reajo quando divergimos. Cônjuges constumas dar ótimos "feedbacks" neste sentido. É uma boa prática, desde que estejamos prontos para ouvir sem nos defender. Sabedoria, só floresce onde há segurança para falar a verdade.
É possível aprender a falar menos, escutar com atenção, corrigir com doçura e servir sem disputar holofotes. Pessoalmente, flando de holofotes, as melhores experiências que tive "como igreja", foram longe de holofotes: seja na educação empreendedora em um presídio, na cabine de um ministério de aconselhamento por telefone ou em evangelismos em alas hospitalares. A sabedoria do alto se prova pelos frutos, especialmente aqueles que crescem longe dos olhares públicos.
Que o Senhor Jesus te abençoe e te guarde.
Permaneça na Palavra e faça discípulos.

